Inventário:
Em tempos de seca, lágrimas.
As portas do teu armário ainda guardavam o cheiro de rotina. Cada peça dobrada era mais do que tecido; era gesto repetido; era escolha. Ontem eu fui dobrando tudo com um cuidado que não era só meu. Como se, ao alinhar mangas e vincos, eu tentasse manter alguma ordem possível, algum eixo.
Usei o box da tua cama como apoio.
Abri a janela para que o quarto respirasse e para que a luz entrasse. Mas o dia foi se despedindo aos poucos, e eu precisei acender a luz, não só do teto, mas alguma outra dentro de mim para seguir.
Foi então que o vento veio.
Suave, quase tímido. Eu levantei o rosto, procurando a origem, achando que vinha da janela como todas as coisas explicáveis. Mas não. O ar se movia de outro lugar. O ventilador girava, inesperado, como se tivesse decidido participar daquele momento.
Não houve barulho de clique, nem aviso. Só o movimento.
Pensei em fios, em falhas, em lógica. Procurei explicação como quem procura chão. Mas, no meio de sacos cheios de tuas roupas, calças que guardam o formato do teu corpo e do teu caminhar, alguma parte de mim escolheu acreditar que eras tu.
Não como um mistério grandioso, mas como continuidade.
Às vezes envolve, às vezes atravessa. Nem sempre abriga.
E talvez seja assim que ele vem. Trazendo, junto do cuidado, o que também se ausenta.
Talvez despedidas também sejam um tipo de rearranjo invisível. Uma mudança de forma. Um jeito novo de presença que a gente aprende a reconhecer devagar.
Atualmente ela me escapa; é difusa; sem nome. Como se tudo tivesse mudado de lugar ao mesmo tempo, e eu soltasse sem saber exatamente o quê. Dizem que, quando um vento parte, outros antigos se levantam junto. Talvez seja isso.
Ainda falta a cômoda. Ainda falta o armário do quarto de visitas.
Mas o principal estou recordando:
tem coisas que a gente não guarda em sacos.

Que texto potente, Mira!