Inventário
Outras partes.
Abri a porta do apartamento e foi o cheiro dela que me encontrou primeiro. Um cheiro antigo, adormecido em algum lugar inacessível da memória, atravessando anos de ausência para reaparecer inteiro, intacto. Meu corpo soube antes de mim.
As coisas permaneciam exatamente onde haviam sido deixadas pela última vez. O pente; as lixas de unha; o alicate repousado sobre o braço do sofá. O telejornal provavelmente ainda existia em algum ponto do tempo daquela sala. Bastava silêncio suficiente para escutá-lo.
É curioso perceber como os objetos ignoram a morte.
Eles permanecem fiéis aos hábitos de uso. Aguardando como cães esperando na porta.
Passei semanas entrando e saindo daquele apartamento como quem atravessa o corpo em decomposição lenta. Abrindo gavetas; separando roupas; empilhando memórias em caixas de papelão. Decidindo o que ficava; o que partia; o que sobreviveria comigo.
Quando eu era criança, sentava ao lado dela no sofá e observava o pequeno ritual das unhas. Ela assistia às notícias enquanto arrancava as próprias cutículas com uma concentração quase religiosa. Às vezes sangrava. Quase sempre. E só parava quando o sangue aparecia.
Na época eu não entendia.
Hoje penso que algumas pessoas passam a vida inteira conversando com a dor através de pequenos cortes. Ela parecia viver assim: prestes a cicatrizar, mas retornando à própria pele para desfazer o trabalho do tempo.
Uma vida inteira arrancando casquinhas. Inflamando feridas.
E talvez o amor também tenha sido isso entre nós: uma ferida exposta repetidas vezes.
No apartamento, tudo ainda falava sua língua. As plantas absurdamente vivas. As ilustrações nas paredes. O coquetel de remédios sobre o balcão da cozinha. Havia presença espalhada pelas superfícies.
Até que chegou o último dia.
A sala vazia parecia maior do que o apartamento realmente era. Minha irmã deixou que eu fechasse a porta pela última vez sozinho.
E foi ali que eu entendi.
A morte aconteceu naquele instante.
Quando o último vestígio foi retirado, já não havia mais onde sua presença pudesse repousar do lado de fora.
Resta apenas uma lenta migração da sua presença para dentro de mim. Escondida em gestos que julgarei meus até perceber de onde vieram.
Como se algumas pessoas nunca aprendessem completamente a partir.

esse texto vai ressoar dentro de mim por muito tempo. senti tua dor, e te abraço.